Godzilla e o Apocalipse

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A imagem da destruição. A terra devastada. O rastro de escombros. O mar que invade a cidade e arrebenta tudo que encontra pela frente. Milhares de mortos submersos, edifícios arrasados, ruas encobertas pela água voraz. Todas as imagens espetaculares, extraordinárias. Os céus rompendo em gritos e a chuva que banha o sofrimento dos milhares que perderam suas casas, suas vidas.

O cinema de catástrofe potencializa a criação de imagens que vimos em descrições épicas, nas ilustrações, nos registros recentes da destruição completa. Porque na vida real, uma cidade arrasada é uma cidade arrasada. Hiroshima, Fukushima, Nagasaki, Indonésia e tantos outros lugares. Os primeiros instantes após a grande explosão, o mar que lentamente carrega tudo, o terremoto.

Na ficção, isso é retratado em demasia pela computação gráfica. Porque é preciso fazer um filme novo a cada avanço de tecnologia para mostrar o quanto a vida humana é frágil. E além disso, o motivo, a ira do que está acima das forças humanas, o monstro radioativo, o deus ex-machina, o Godzilla.

De cima tudo parece pequeno. Quando se sobrevoa os continentes dentro de um avião, diariamente, sobretudo para aqueles que se sentam na janela, a imagem das cidades, das pequenas casas, luzes, montanhas, praias e rios viram desenhos frágeis, belos, porém, frágeis. De cima a história humana vira um arremedo de paisagem.

A grande estupefação na última refilmagem do clássico japonês do grande dinossauro atômico é justamente o que não acontece quando o cinema destrói o mundo de tempos em tempos. Vemos o rastro de cada passo, cada movimento do corpo muito maior que tudo que nos rodeia. O sentimento de humanidade desesperado diante do horror que é a hecatombe das construções. Tudo se esvai como um castelo de cartas.

São centenas de Torres Gêmeas caindo a cada quadro, o estrago das pegadas, como se nosso planeta fosse cenário para estes seres que percorrem as cidades como se nós fôssemos as formigas. Depois de um mergulho no oceano, um tsunami, depois de um bater de asas, um ventania tão forte quanto um furacão. E no meio de tudo, a história de cada indivíduo, o fim de uma trajetória, da visão de mundo de quem nunca pensou que estaria vivendo tamanho absurdo.

Este último Godzilla é o meteoro, é a incapacidade de conceber nosso tamanho. Lá de cima, da janela do avião, pensamos com temor no quê aconteceria se uma fera saísse dos mares e andasse sobre as edificações, se o gigante de pedra despertasse e limpasse seu corpo com um simples movimento.

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Mas o dinossauro japonês não existe, nem os outros dois enormes insetos que se alimentam de radiação. A nossa arma maior não vai precisar ser mais uma vez detonada, os monstros continuam a habitar os livros, a mitologia, o cinema. Na nossa história, só as duas cidades japonesas, que não tinham rabo, dentes, olhos e grito estrondoso de fera épica, acionaram o botão vermelho.

Nosso grande inimigo gigante e terrível ainda somos nós mesmos, e ironicamente, as palavras do piloto evocaram nossa outra ideia de salvação e punição severa, quando o cogumelo de fogo e fumaça tocou as nuvens da pequena cidade naquele 6 de agosto de 1945: Oh, my God!

AMORAMERICA – Sete Anos Depois

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Deve ser assim que deve se sentir o Superman quando voa. Primeiro observar os continentes, as cores das florestas, desertos, rios, bacias e mares. Depois as luzes das cidades que ofuscam as estrelas. Então aproximar-se o suficiente para perceber as construções, os edifícios, pontes, casas, igrejas, o barulho dos carros, fábricas e trens, para, finalmente, pousar em alguma rua, em algum lugar do planeta e, enfim, salvar a raça humana de um perigo extraordinário. Só que o Superman, assim como tantos outros super heróis, tem uma preocupação que vai além das desventuras do planeta e de nossa miserável e mortal vida, o Superman, precisa, antes de tudo, salvar os Estados Unidos da América.

AMORAMÉRICA foi publicado em 2008, na iminência esperançosa do recém-eleito first american black president Barack Obama. E como quem devolve o sal para o mar, o livro desfragmenta numa homenagem antropofágica tudo aquilo que os north americans enfiaram goela dentro de nós, a latin america.

A influência americana é avassaladora. Dos super heróis que tanto já salvaram Nova Iorque, os G.I Joe, o Mickey Mouse, Donald Duck, os happy contos de fadas versão Disney, o Rambo, Rocky, Michael Jordan, John Montana, Carl Lewis, Mike Tyson, até o universo vasto, milionário e infinito de Hollywood, estamos impregnados pelo dedo do Tio Sam até a raiz das pregas.

Como se sabe, Os Sete Novos, são na verdade três, Augusto Guimaraens Cavalcanti, Domingos Guimaraens e Mariano Marovatto, que, cada um a sua maneira, mastigam e regurgitam estrela por estrela da tricolor american flag.

O livro traz um curioso código-enigma-interessantíssimo: Cada poema tem um coordenada que te leva a algum lugar do mundo como um tentáculo metafísico. Então, com a capa vermelha do Super “Google Earth” Man e os tênis NikeRunnig do Forrest “Google Street View” Gump, percorre-se o mundo atrás desses lugares misteriosos como um legítimo Indiana Jones.

E de poema em poema passamos pelo Triângulo das Bermudas, Pindorama, uma casa velha em Nevada, um McDonald’s em Wisconsin, The Cow Place em Indiana, um rancho no Texas, a Central Park West, Villa Kennedy, Recife, San Diego, Chicago, o capitólio de Bismarck, Gotham city do Reino Unido, Washington, um lago negro no Kansas, Illinois, uma igreja velha em Paranaguá, a calçada da fama, Parintins, um iceberg que não existe mais e dezenas de lugares minuciosamente connected at the land of the free and the home of the brave.

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“Há poesia no dólar, há poesia nas notas verdes, pasto de Wall Street! Uma vaca rumina uma barba verde de Abraham Lincoln, um mustang puro sangue cavalo alado galopa nos pastos verdes das folhagens de dólar! Um cowboy viu poesia nos dólares. Me contou Maiakóvski a história de Damon Jim, numa conversa com Chico Xavier…” (trecho de Verde Pasto Dólar de Domingos Guimaraens)

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“Estava eu comendo meu cheeseburger de cimento quando chegou João Cabral sufocado em seu parangolé balbuciando Anti-Char. “A mixagem alta não salva, se eu cair a poeira da lua vai me cobrir”, me gritavam os Beach Boys. “Só os sem mira e sem pontaria respeitam Shakespeare e até dormindo eu sou mais inteligente do que o Doutor Armando Nogueira”, me respondia Nelson ululando.“ (trecho de Oração Ao Tigre Zé Celso de Augusto Guimaraens Cavalcanti)

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“Preston Woolen e Worda Chandler trabalham como atendentes no Cow Palace-Restaurant em Shelbyville, Indiana. O jovem casal sonha em ganhar a vida no Brasil, a terra das oportunidades, mas terão que adiar seus planos” (Brazilian Dream de Mariano Marovatto)

Depois de alguns saltos pelo planeta, A impressão que se tem é que há dois Estados Unidos da América: Um heróico, épico, terra de grandes acontecimentos políticos, dos mísseis nucleares, das medalhas de ouro, da NBA, NHL, NFL, CIA, FBI e do KFC, das perseguições implacáveis, das explosões, dos U.S Marines, da bandeira que traz a salvação, de Ross and Rachel, Brad and Angelina, Marlon Brando, Jerry Seinfeld e Dr. Dre mother fucker, dos grandes músicos, romances e cigarros em preto e branco, da liberdade, do thanksgiving, das highways, das trilhas monumentais de John Williams, de Lee Harvey Oswald e Mark David Chapman.

E um outro, vazio, opaco, afundado no tédio, no meio das estradas sem curvas, dos brandmarks que compõem a paisagem das cidades, dos green american presidents inside the pockets, da megalomania vertical dos arranha-céus que sobem e que desabam, do silêncio depois das explosões, da loucura milionária dos números coloridos de Las Vegas, do touro de bronze embebido em cólera de Wall Street, dos reais tiroteios dentro dos cinemas e escolas, das pequenas casas de madeira e dos trailers brancos estacionados lado a lado no meio do nada. Ambos fazem parte dos mesmos Estados Unidos da América.

AMORAMÉRICA evoca uma melancolia insuportável, um miasma que só se dilui com a sucção do fígado após uma gargalhada. O estrondo é alto e só a poesia salva. Então, o quê fazer com tanta coisa pendurada no corpo? Comer, digerir, vomitar, cuspir, gozar, defecar, transformar tudo em barro e construir uma moringa, depois enchê-la com cachaça, sentar na praia, olhar o imenso horizonte e embriagar-se plenamente pensando no velho italo-americano Bonasera, que diante do desespero, foi suplicar ao italo-americano Vito Corleone, lamentando o que tinha feito de errado, sofrendo pela desgraça de sua filha e do fracasso do american dream “I believe in America. America has made my fortune. And i raised my daughter in American fashion” (…) enquanto nós balançamos lentamente nossas cabeças junto com o velho Vito e seu gato cinza no colo “Bonasera, Bonasera…”

O Fio dos Amores Eternos

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No verão de 2014 a prefeitura de Paris distribuiu pela cidade dezenas de pianos. E a partir do dia 21 de junho, quando acontece a Fête de la Musique, podia-se ver e ouvir, tanto de dia, quanto de noite, grupos de pessoas reunidas em volta dos pianos tocando tudo que se pode imaginar.

Às vezes um sujeito sentava e tocava aquela única peça que sabia das aulas da infância, um Satie ou um Mozart, às vezes jazz, mas a música estava lá de alguma forma compondo livremente os cenários onde os pianos se encontravam.

Porém em um deles aconteceu uma coisa estranha, ou mitológica. Na borda do Sena, em frente à Catedral de Notre Dame, logo depois da ponte de l’Archevêché, onde muitos se encontram para beber vinho e fumar haxixe em um fim de tarde, antes da saída dos ratos, quando o sol está para se pôr às nove horas da noite e, no caso específico da época, fazer música com o piano da prefeitura.

Em uma noite dessas das férias do meio de ano, no quente verão do hemisfério norte, um improviso se elaborava. Um rapaz fazia uma base ao piano enquanto outro batia na madeira da estrutura, outros batiam palmas e um cantava o que lhe vinha na cabeça sempre voltando à palavra Éternité!.

Uma amiga violinista tirou o instrumento da caixa e entrou na célula musical requintando barbaramente a composição coletiva daquela noite. Apareceu outra com um violão, vinho branco, vinho tinto, cerveja, a catedral ao fundo, iluminada, o céu azul já escuro sem nuvens, o rio Sena com luzes amareladas sobre a água verde e suja que refletia nas pedras centenárias dos túneis.

Porém, um barulho solitário e violento chamava atenção de quem se afastava do grupo. Em cima da ponte, pouco furtivo, um homem vestido de preto com um pé-de-cabra nas mãos batia fortemente na grade protetora da ponte, arrancando, um por um, os milhares de cadeados presos com nomes de casais que passaram por ali.

A cena chocava porque era impassível, porque esse homem arrebentava sem piedade, em três ou quatro pancadas, os notórios cadeados. Fácil seria supor que se tratava do vendedor de cadeados que fica lá de dia vendendo e sorrindo aos turistas que se deslumbram com a paisagem e eternizam seus amores nos pequenos artefatos de metal.

Mas não era isso. Aquele homem era na verdade uma moira, mais precisamente Átropos, a que corta o fio da vida. E naquele momento, espalhados pelo mundo, casais que um dia selaram seus destinos naquela ponte, viam seus fios se desatarem, separando-se à medida que ela trucidava os nomes e pequenos corações desenhados.

Cega, a moira não escolhia qual fio cortar, se seria de Paul et Sophie, Anne et Jean, Ferdinand and George ou Luiza e Clara, ela simplesmente abria espaço no ferro causando estupefação e dor àqueles que um dia pensaram que seria para sempre.

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De volta ao piano, onde a vida se elaborava, a coisa estava longe de ser lúgubre, era amor pulsando ainda, com cantos, prazer e música, na fogueira recém acesa esperando revelar as histórias que ainda não aconteceram. E ali se estabelecia o grande paradoxo da vida: de um lado, o fim e do outro, o começo.

E mesmo que um ano depois a mesma prefeitura tenha retirado de uma vez toneladas de cadeados das pontes de Paris que danificavam suas estruturas, o trabalho silencioso e sinistro das moiras já havia sido feito e, mais uma vez, o mito invadira a realidade.

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Perceber logo nas primeiras palavras que se trata de algo diferente. Essa coisa contorcida e estranha que vem de não-sei-onde e que impregna como uma memória insuportável. O poema é uma memória insuportável. Um distúrbio, uma fenda que se abre para um novo estado de coisas.

Lembrando Paul Valéry, “Um poema é uma duração, na qual, leitor, eu respiro uma lei que foi preparada; eu dou meu sopro e as máquinas de minha voz, ou somente seu poder, que se concilia com o silêncio”. Como se o tempo não passasse, como se um soco nos apagasse no meio da cidade e acordássemos com tudo diferente.

E tal qual em muitas sinfonias, há poemas cujos princípios são antológicos:

Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!

Augusto dos Anjos é Don Giovanni! Muitos têm aberturas que são verdadeiras pedradas:

Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Monstro de escuridão e rutilância,

Sofro, desde a epigênesis da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.

A coisa funciona meio que como na 5ª sinfonia, já se sabe, de alguma forma, que trata-se de algo diferente. Não que um bom início garanta o poema, que seja condição, muitos entram suaves e se transformam, mas, quando acontece nas primeiras palavras…

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Ou…

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

E a coisa se dá naturalmente. Nestes dois do Pessoa/Álvaro de Campos a urgência está presente desde a primeira letra. Urgência. O Pedro Rocha enfatiza isso muito bem quando fala sobre poesia, “um poema precisa ter urgência”.

E o quê falar dos primeiros versos do primeiro livro do Drummond?

Quando nasci, um anjo torto
 desses que vivem na sombra 
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

É assim que ele começa tudo! Como se mexesse na matéria prima da existência com os dedos magros e esculpisse coisas assim:

Acordo para a morte.
Barbeio-me, visto-me, calço-me.
É meu último dia: um dia
cortado de nenhum pressentimento.
Tudo funciona como sempre.
Saio para a rua. Vou morrer.

Evidente que o poema é uma viagem única, que, lembrando João Cabral, “o poema lido uma única vez, é um poema mal lido”. O poema é uma invasão no corpo do outro, uma constante transformação, e julgá-lo somente pelo princípio seria injusto, porém, entrar em um poema é sempre um risco, tanto pra quem escreve, quanto pra quem lê, e se for pra se jogar, que seja saltando longe…

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

Ou,

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

Como se o poema fosse o último grito, como se o poema fosse a última coisa a ser dita antes fim de tudo:

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:

outro Gullar:

Eu devo ter ouvido aquela tarde
um avião passar sobre a cidade
aberta como a palma da mão
entre palmeiras
e mangues
vazando no mar o sangue de seus rios
as horas
do dia tropical

Como se uma nuvem de tensão surgisse, o início do poema é a expectativa da chegada da bomba, quando tudo explode transformando tudo:

quem fala que sou esquisito hermético
é porque não dou sopa estou sempre elétrico
nada que se aproxima nada me é estranho
fulano sicrano beltrano

Ainda Waly:

Por que a poesia tem que se confinar
às paredes de dentro da vulva do poema?

E o poema se anuncia já no primeiro sinal, ou melhor, o poema já é o primeiro sinal:

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco

Mais Piva:

Eu vi os anjos de Sodoma escalando
um monte até o céu
E suas asas destruídas pelo fogo
abanavam o ar da tarde

E poderia-se ficar eternamente nesse exercício. Guilherme Zarvos:

Daqui de cima do Monte Pascoal viu. Neste
bosque encantado, nesta floresta que é parque
quando tudo era parque – correu morro: trinta
quilômetros.

Domingos Guimaraens:

encarcerado no habitáculo do sono
amarrado às redeas do peso infinito
das dormentes horas adormecidas
olho para as cortinas fechadas
membranas plasmáticas do além

O poema é mesmo “catapultaquiupariu”, como diz o Pedro Rocha. Jorro de sangue do nervo exposto que só sai porque deve sair e não há outro jeito. Do Pedro:

Diante do Jardim só Flor
meu tumulto mudo

silêncio na avenida das
Américas

e o escândalo sonoro e opaco
do medo de perder minha vida
ao lado daquele
homem nome de telefone

E como não poderia deixar de ser, Ericson Pires:

aquele que escreve é
também aquele que
é escrito

a potência
de nadar no tempo
a insistência
de sentir o fio
a querência
de brotar acaso

E assim essas sinfonias abrem seus trabalhos até o cair dos panos, até seus pontos finais, até suas concretizações dentro dos corpos de quem os lê, e que fazem seus ecos se multiplicarem reverberando eternamente nos multi-universos.

Eu já era ou Guga Ferraz

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A rua Itapirú 1453 é uma sede náutica onde muitos navegantes se encontram. De lá se vê o Querosene e parte do São Carlos. Há pés de paineira, mamão, pau-brasil, ganja e uma criação de borboletas dentro de uma garrafa de vidro. Também percebe-se pedaços de tinta nas paredes, dourados, vermelhos, pretos, com a forma vazia de centenas de sujeitos correndo. A pequena mesa é um skate sem rodas onde dorme um pequeno boneco de madeira estilo Falcon com mãos que se movimentam. Na parede o retrato de um velha senhora, meio barro, meio ouro, e um incêndio generalizado sendo elaborado no grande compensado. A rua Itapirú 1453 é uma vila onde moram vários amigos, e também é onde fica a casa do Guga Ferraz.

A televisão sempre fora de foco é apenas uma paisagem estática para tudo que acontece ali. De ensaios greco-carnavalescos-dionisíacos até a lapidação de isopor, madeira e massa de cal em formas que compõem o extenso trabalho. Guga é skatista na essência, e o seria mais ativamente se os joelhos deixassem.

No outro lado da rua o botequim é sempre cheio. Churrasco na calçada, rodas de pagode nos fins de semana e uma maquininha de bingo onde muitos perdem trocados na esperança de um pouco mais. Para qualquer problema de secura, basta atravessar a rua e voltar para a ilha. Tudo sempre gelado.

Foram 14 anos de Santa Tereza até singrar para o Long River. E os gatos foram junto. Agata nasceu em Santa e foi para o Rio Comprido com Tarja Preta pai. Tarja morreu, mas logo viria Tarja Preta filho, assim como Jarina. Ambos nasceram no mesmo dia.

Fazer ação junto, no coletivo, como algo natural e prioritário. Desde os trabalhos no Prata da Casa, cruzamentos com poetas e artistas de outras áreas da cidade até fazer com que o conhecimento adquirido no Fundão fosse compartilhado para além da ilha, ou seja, o Projeto Desilha. Desilhar a ilha do Fundão para cidade. Espalhar pela escadaria da Joaquim Murtinho dezenas de sacos de cal gigantes com a imagem do Cristo Redentor. Papel do bom com a imagem do Jesus carioca. Ação conjunta na fenda, no nervo.

O projeto Atrocidades Maravilhosas já faz quinze anos. Proposta de Alexandre Vogler que reuniu vinte artistas em uma ação pela cidade colando lambe-lambes em locais específicos, sem autorização, sem permissão, na fervilhante necessidade de se fazer algo coletivo, pela falta de espaço na cidade, sem fazer pirueta para as galerias, afetando a população de maneira direta, efetiva e afetiva.

Estar na rua, na polis, como lugar fundamental para a expressão. “Gosto de uma parada que o Vogler fala sobre o Atrocidades que resume bem o que é, o desenho no papel e na parede podem ter a mesma potência, mas na parede mais pessoas vão ver”.

O notório Onibus Incendiado é de meados de 2003, 2004, com adesivos que eram colados nas placas de ponto de ônibus. Essa apropriação poética da simbologia pictórica da cidade que chegou a ser confundido até com apologia ao crime (!). Conceito de cidade afetada, diria até, ocupada.

Porque falar do Atrocidades depois de Cidade Ocupada de Ericson Pires, seria um esforço incompleto, visto que o poeta “foi o que conseguiu captar tudo aquilo no meio da confusão toda”.

Então o sujeito passa pela rua e vê uma pessoa dormindo em uma calçada e por compaixão deixa ao lado uma garrafa de cachaça. Seria uma descrição normal não fosse a pessoa uma serigrafia colada na parede. A estupefação de quem vê em um poste Compro Sua Alma, Vendo Minha Pele, ou mesmo quem passa pelo elevado Paulo de Frontin e consegue ver o céu azul cheio de nuvens através do concreto sujo.

Esse complemento poético do que não há, ou do que não há mais. Como na reconstrução do Morro do Castelo dentro da galeria do Gustavo Capanema, a visão trágica de dezenas de cabeças amontoadas no canto d’A Gentil Carioca, ou na parede do lado de fora da mesma galeria, anos antes, uma beliche múltipla chamada Cidade Dormitório, onde muitos se serviram da rara oportunidade de dormir em uma cama, quando o chão sempre foi a única alternativa.

A deslocação do corpo pela cidade como algo essencial e orgânico para a cartografia expansiva afetiva que existe. Fundão, Santa Tereza, Rio Comprido, Arpoador, Botafogo, Jacarepaguá, tanto mais a dizer, tanto mais a percorrer.

Infelizmente não existe bala perdida, o que existe é bala achada. Uma trágica e corriqueira realidade transformada em uma espécie de símbolo que se reatualiza a cada ano. Fuzis AK-47 coloridos, parecendo doces, o Rio de Janeiro em chamas como a anunciação de uma catástrofe que só aumenta. Tudo é realidade, tudo é poesia, tudo é facada.

Mas há espaço para ser uma bola de pinball perfeita. Percorrer o Brasil pelo rio Amazonas até desaguar em Magé e pelo coletivo afirmar o que se pensa e o que se faz no mundo. Estar junto é a ação mais importante. Diante disso, resta essa condição fundamental de existência, quando o corpo precisa se movimentar pela cidade, se expandir e pertencer ao meio como o meio pertence ao corpo.

A rua Itapirú 1453 é um ponto de convergência afetiva necessário, assim como a Joaquim Murtinho 616, o Armazém São Thiago, a rua Gonçalves Ledo 17 e outros tantas esquinas, praças, ruas e becos da cidade que servem de cenário vivo para a constante criação de mundo que é preciso acontecer a cada a dia. E como dizia o poeta “Gritar uma supernova segundo. O Amor Brilha”. Travessia.

As Origens do Mundo

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Antes que o tudo fosse tudo, antes que o nada fosse nada, quando o antes não era antes, no início do início do início havia apenas o caos, um mar calmo, o vazio estático, o silêncio, todas as partículas estavam centradas em um único ponto, o verbo, sete rios congelados, o nada, a vontade do criador, o demiurgo, a explosão. Todos estes termos e muitos outros fazem parte das infinitas cosmogonias que explicam a criação do mundo que vivemos.

A pergunta fundamental que todos os mitos tentam responder é: Como tudo isto que está aí nasceu? ou, Qual a origem do Universo? Da vida? Do mundo? Há explicação pra tudo das mais variadas formas, mas estas elementares angústias humanas não cessarão jamais.

A ideia de um início caótico aparece em muitas cosmogonias. Na grega, antes só havia o Caos, o nada absoluto, o vazio. Do Caos nasce Géia, a terra, a mãe, a semente primeva que gerou todos os deuses. Também do Caos vem o princípio voluptuoso que une tudo, Eros, o mais belos dos deuses, o amor natural, o que faz misturar, o magnetismo dos corpos. Ainda do Caos surgem Tártaro, o abismo, o submundo, Érebro, a escuridão e Nix, a noite. De Nix nasceram Éter, a luz superior, e Deméter, o dia. A partir daí Géia assume o papel de geradora e produz Urano, o céu, os Montes, o ponto de encontro entre o plano celeste e a terra e Pontos, o mar.

Como acontece em todas as culturas, nas cosmogonias egípcias os papéis variam de acordo com a região onde o mito é contado. O mais curioso é o da Enéade (nove deuses) heliopolitana, onde, Atum, o velho deus sol, encabeça os nove deuses que criaram o mundo. Nascido de Num, oceano primordial, Atum (Rá) iniciou-se sobre a pedra benben, o monolito sagrado de Heliópolis, e masturbou-se, gerando Chu, o ar, fluxo de energia da libertação do sêmen, o masculino e Tefnut, a humidade, potencial de vida, o feminino. Desse casal nasceram Geb, o deus da terra, e Nut, a deusa do céu. A separação entre dia e noite se deu pela inveja de Chu do amor do casal que os separou. De Geb e Nut nasceram Osíris, lodo fertilizador, e Íris a terra fértil, e também Seth, a violência, e Néftis, a morte. De Osíris e Ísis veio Hórus e assim por diante.

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No caso egípcio, Num, não é como o caos grego, pois nunca deixou de existir depois da criação, inclusive tem papel apocalíptico quando afirma-se que retornará a inundar o mundo inteiro destruindo-o e dando novo ciclo à criação, naturalmente ligado às enchentes do rio Nilo.

O instante inicial também aparece de forma questionadora quando em uma das diversas cosmogonias dos Vedas, no notório ‘Hino da Criação’, livro 10, que diz que no começo não existia o ser nem o não-ser, não havia morto, nem não-morto, só havia o princípio conhecido como “Um”, que respirava por impulso próprio. As trevas estavam escondidas pelas trevas, mas o fervor interno, tapas, fez com que esse “Um” se tornasse âbhû, o embrião, e desse germe desenvolveu-se o kâma, o desejo, que gerou a semente primeira, retas, que por sua vez deu origem à consciência, manas. A semente dividiu-se em alto e baixo (masculino e feminino), os deuses vieram depois, mas, como surgiram depois da criação, nem eles sabem como tudo se deu.

E diversas versões também se dão na extensa tradição africana Yorubá que, em um deles, diz que Olorun, o deus supremo, através de seu hálito, criou o Universo e todos os Orixás. Assim, delegou a Oxalá que esculpisse o mundo dando-lhe o “Saco da Criação” com uma galinha de cinco patas, um punhado de terra dentro de um caracol e um camaleão. Oxalá também teria que fazer uma oferenda a Exú, mensageiro entre Orun, o céu, e Aye, a terra. Porém o orgulhoso Oxalá ignorou a condição e passou direto. Exú, com raiva, vingou-se de Oxalá dando-lhe uma terrível sede. Oxalá teve de saciar-se com a seiva de uma palmeira que o deixou tão embriagado que o fez esquecer de sua importante missão. Exú tomou-lhe o saco e entregou a Oduduá, que acabou por criar o mundo. Oxalá, arrependido, clama a Olorun que o ordenou a criar o homem.

Já os maias contavam que no princípio a superfície da terra era vazia, havia apenas um mar calmo e grande extensão de céu, tudo era silêncio e estático. Dentro desse mar havia Tepeu, o Senhor, e Gucumatz, a Serpente Emplumada. Eis que Tepeu e Gucumatz saíram e criaram tudo que existe através da palavra e pelas mãos do deus Huracán. E assim surgiram as árvores, as flores, as chuvas, os animais e tudo o que existe. Da necessidade de serem adorados, criaram os seres humanos.

Entre os maoris há o conflito pais e filhos. Rangi, o deus céu, e Papa, a mãe terra, viviam a eternidade unidos por um abraço. Ambos tiveram setenta filhos homens, todos vivendo da escuridão do abraço. Até que Tumauatenga, o filho mais feroz, resolveu matar os pais e sair da escuridão, mas Tane, o deus das florestas, o impediu, achando melhor viver no espaço entre eles. Tane, com suas pernas fortes, conseguiu, deitado, separar os pais. Os gritos de Rangi e Papa enfureceram Tawhirmatea, o deus do vento, que trouxe as tempestades. Com pena, Tane, abrigou o pai com o negro manto da noite e a mãe com um vestido de verdes plantas e flores. Tudo se acalmou e cada filho de Rangi e Papa ajudou de alguma forma a compor o mundo.

Separar céu e terra também aparece no mito da criação japonês escrito no Nihongi, um dos dois livros que guarda os mitos japoneses primitivos. Consta que no início, Céu e Terra não estavam separados, era uma massa caótica, uma espécie de ovo. A parte mais pura e mais clara formava vagamente o Céu, e a parte pesada e densa formava a Terra. Depois que a divisão foi fixada, surgiram os deuses, as deidades criadoras, Izanagi, o Varão-Que-Convida, e sua irmã, Izanami, a Fêmea-Que-Convida. Então as Divindades Celestes ordenaram que Izanagi e Izanami dessem luz ao mundo dando-lhes uma lança adornada de jóias celestiais. Enfiaram a lança no mar e começaram a mexer até que a água coagulou, ao puxarem a lança para cima, a água que gotejava formou a ilha de Onogoro. Desceram e lá fizeram uma casa e tiveram um filho, Hiruko. Depois ambos dão à luz as ilhas do Japão.

Há um mito interessante nos uiotos da Colômbia que diz que no começo não havia nada, somente simples aparência. Tudo era um fantasma, uma ilusão que o grandioso pai, Nainema, tocava. Nainema apertou o fantasma contra o peito e recolheu-se em pensamento. Nainema só conseguia sustentar a imagem do fantasma pelo fio de um sonho. Curioso, queria mais, tateou o fundo do fantasma com os dedos e aplicou a mágica substância-cola. Assim, por meio do sonho conseguiu segurar o fantasma como se fosse algodão. Agarrou a parte inferior do fantasma e pisoteou-a várias vezes formando assim a terra, onde deitou. Depois, Nainema cuspiu saliva muitas vezes e fez surgirem as florestas. Por fim, deitado na terra, colocou sobre ela a cobertura do céu, retirou da terra o céu azul e branco e colocou-o acima.

E os mitos vão permeando todos esses fatores, algo caótico que gera os primeiros deuses, algo que precisa ser separado para fazer nascer, nomes e gestos que formam os elementos, as coisas todas que o que escreveram ou contaram viram, ouviram ou sentiram de alguma forma. Mas há também um “mito” muito interessante que perpassa por todos esses e muitos outros ao dizer que há 14 bilhões de anos atrás, todas as partículas estavam concentradas no mesmo ponto, e moviam-se em todas as direções e sentidos em velocidades próximas a da luz. O tempo não existia, era o átomo inicial, o ovo cósmico, em um estado denso e extremamente quente. Até que Albert Einstein, e sua Teoria da Relatividade Geral, junto com a métrica de Friedman-Lemaitre-Robertson-Walker, pela lei de Hubble-Homason e pelos estudos de George Gamow, sabe-se que esse ponto começou a expandir naquilo que ficou conhecido como Big-Bang, dando origem ao Universo. E continua a se expandir até chegar num outro ponto onde começará a voltar até que tudo volte a ser aquele antigo ponto caótico.

Mas há os que acreditam que o Big-Bang, na verdade, é o choque de universos paralelos bem mais antigos que este em que vivemos e tentamos explicar desde sempre. Talvez esses universos paralelos sejam todos os aqui citados e milhares de outros que compõem o grande livro das origens, sem autor, sem começo nem fim, onde todas as histórias são a mesma história, onde Tepeu, Atum, Javé, Odin, Urano, Brahma, Olorun, Tiamat, Yuxibu, Izanagi, Wakonda, Stephen Hawking fazem parte do infinito, onde todos os deuses e entidades fazem parte do infinito, não só o infinito do universo, mas o infinito da imaginação, pois teremos que contar e recontar a história do mundo sempre, e quando estivermos todos mortos, também seremos espectros da imensidão, observados pelos que, sentados em algum lugar calmo e ermo, admiram as estrelas e os grandes mares e se indagam naturalmente: “Como tudo isto foi criado?”

Raúl Zurita parte II

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Mais ou menos um ano depois a coisa foi bem diferente. Zurita já era um poeta que conhecia e lia. Tinha virado já fator de extrema importância na minha vida assim como toda a descoberta da poesia contemporânea latino americana.

E estávamos novamente em um festival de poesia, eu, Pedro e Amora, com poetas de toda a América. Argentina, Chile, Equador, México, Peru, Bolívia, El Salvador e muitos outros. Desta vez em Santiago do Chile, com seus cachorros pelas ruas e aquela magnífica e imponente cordilheira.

Um ponto: A cordilheira do Andes é algo tão impressionante, tanto do avião, quanto das ruas de Santiago, que nos fez pensar sobre a tradição poética do Chile. A cordilheira dá uma estranha sensação de proteção, de isolamento, e de prisão ao mesmo tempo. Com aquelas pontas brancas, o limite que se pensa alcançar com os olhos, até a poluição dar uma trégua e revelar perspectivas ainda maiores, o rio que se forma na época do degelo e saber que a cadeia de montanhas corta todo o continente até a Venezuela, nos dá essa rara impressão do nosso próprio tamanho. O Chile é um país misterioso.

O Poquita Fe é um festival tradicional feito por poetas para “los que aman la poesía” como bem disseram os poetas e organizadores Héctor Hernández Montecinos e Paula Illabaca Nuñes, assim como tantos os outros que ajudaram na realização. O festival começou homenageando Antonio Silva e o nosso Ericson Pires, poetas que, nas palavras de Héctor “amaban tanto la poesía que dieron su propia vida por ella”.

E o cortejo de poetas percorreu diversos lugares da capital chilena. Centros culturais, bibliotecas, institutos, universidades e, sobretudo, bares. Os dias de leitura terminavam gloriosamente com um viño de honor.

Foram momentos preciosos. Ver o Pedro Rocha falando na fonte da Fundação Pablo Neruda, a Amora Pêra falando seu poema ‘Dinorah’ ao lado da grande Soledad Fariña no Centro Cultural España, ter visto o grande poeta chileno Diego Maquieira falar poemas em seu país depois de 15 anos. Conhecer os poetas bolivianos Clider John, Alex Aillón e Don Piti, a ginga do hermano argentino Juan Salzano, o peruano Martín Zuniga, rever a doce e imensa Paula Illabaca Nuñes, e dezenas de outros que formaram esse núcleo afetivo de poesia como nunca tinha visto antes.

Outro ponto: Logo que chegamos do Uruguai em 2013, fiz uma camisa da FIFI (Federação Internacional de Futebol Imaginário) com o Zurita jogando na lateral esquerda. Chegando ao Chile, no bar, apresentei a ideia de fazer seleções com poetas para os companheiros que simplesmente elevaram a brincadeira para níveis estratosféricos. Não só entraram no jogo como fizeram cada um sua seleção, de modo que a Copa América da FIFI estava completamente pronta. O Héctor, que convocou a seleção chilena, disse que Zurita não era lateral esquerdo, e sim, meio campo, com a 10, capitão do time.
Amora Pêra, Pedro Rocha, Diego Maquieira, Raúl Zurita e Pedro Lago

No último dia, na última mesa, preparei duas homenagens: Uma ao centenário poeta chileno Nicanor Parra, com um poema, e outra ao Zurita, a quem daria a camisa número 6. E fiz as leituras com o Zurita na primeira fila. Embebido em honras, jamais pensei que poderia estar vivendo tal momento. No fim, dei a camisa ao poeta.

Logo depois, Zurita subiu ao palco, agradeceu a fala e disse que o Poquita Fe não poderia nunca acabar, porque se tratava de um festival de suma importância e que realiza-lo era obrigação dos jovens poetas chilenos. Zurita esteve em todas as edições do festival, sempre dialogando com as novas gerações.

Subiu as escadas, passos pesados, e de pé, começou a leitura. Eu não sei o que era, talvez porque já conhecesse ou algo assim, a sala ficou quente, comecei a suar, como se o estrondo fosse ainda maior. Zurita leu dezenas de poemas, com o mesmo vigor, a mesma verve, o mesmo nervo exposto. Leu obviamente Canto a su amor desaparecido, e continuou até o Canto de amor de los países.

Te recuerdas chileno del primer abandono cuando niño?
Sí, dice
Te recuerdas del segundo ya a los veinte y tantos?
Sí, dice
Sabes chileno y palomo que estamos muertos?
Sí, dice
Recuerdas entonces tu primer poema?
Sí, dice

E mais uma vez era surpreendido, pois da memória que guardara do Uruguai, Zurita terminaria no poema célebre, mas foi além. A atmosfera, que já estava exclusiva, rara, catártica, ficou ainda mais.

Dice sí, dice sí sí sí siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiioooooooooooooooooo
ooooooooooooooeeeeeeeeeeiii
iiiiiiiiiiiiiiiiiiioooooooooooaaaaaaaaaaaaa

la la
la

la noche canta, canta, canta, canta, canta
Ella canta, canta, canta bajo la tierra

Aparece entonces
levántate nueva de entre los paisitos muertos
chilenos, karatecas, somozas y traidores
levántate y lárgale le nuevo su veulo y su canto
al que sólo por ti paisa vuela, canta y toma forma
sí devuélveselo a éste el más poeta y llorado
desaparecido del amor
palomo y malo

Sí, dice

Zurita cantava agarrado ao microfone como quem se agarra o último fiapo de vida. Cada vogal do poema era alongada como um uivo. O poeta no tinha matado mais uma vez. Choramos porque era lindo, porque era forte, porque era um momento único, porque era a poesia entrando em nossos poros. E quando parecia que não poderia acontecer mais nada de extraordinário, olho para o lado e vejo Zurita vestindo a camisa do Chile número 6 que eu lhe dera. Nos abraçamos, chorei de novo, era um transbordamento absoluto. Disse a ele que não entendia o porquê dele não ser conhecido no Brasil, tampouco traduzido, então ele me disse “Pedro, la poesía se hace con pasión, sin pasión no se hace poesía”.

E fomos todos para o glorioso viño de honor. Minha vida de poeta tinha mudado, eu tinha mudado, nós todos tínhamos mudado. Voltamos para casa com nossos corações atravessados por esse imenso espectro poético latino americano, com essa corrente ancestral do nosso continente, caminhando pelas ruas desse belo e misterioso país. Em Santiago deixei minha saudade, mas um dia volto para buscar.

Raúl Zurita parte 1

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Eu não sabia do que se tratava quando entrei na Sala Verdi para o último dia de leituras do Mundial Poético de Montevideo. Dias antes, tinha comprado o livro Queridos Seres Humanos na ocasião do lançamento seguido por uma entrevista no palco da Sala Vaz Ferreira da Biblioteca Nacional para uma plateia essencialmente de poetas. Raúl Zurita não era nem um nome para mim, assim como de quase todos os poetas de tantas nacionalidades que pude conhecer naquele festival de 2013.

Pequena nota: O MundialPoético de Montevideo foi uma descoberta absoluta. Nunca tinha participado de um festival de poesia. Todos aqueles poetas do Uruguai, Argentina, Chile, Equador, Peru, El Salvador, Bolívia, Colombia, França, Estados Unidos, Espanha e até mesmo poetas do deserto da República Saharawi. me senti um menino pela primeira vez diante de algo espetacular, feliz por conhecer aquilo tudo, porém triste por perceber que o Brasil está tão distante do que acontece aqui ao lado.

Mas foi o Pedro Rocha, verdadeiro desbravador da América, que me alertou “Você não conhece o Zurita? Ele é o cara!”. E vi subir no palco aquele homem de 64 anos, belo, caminhando em direção à cadeira vazia que o aguardava. Passos serenos, pesados, o parkinson visível, uma pasta de couro de onde tirou uma pilha de papéis, no rosto a total concentração, e uma voz rouca, barítona, que penetraria no corpo como uma sinfonia.

Zurita sobe ao palco. “Tiene que escuchar el poema Canto a su amor desaparecido, es su grande hit” me disse o poeta chileno Héctor Hernandez Montecinos, com quem dividi o quarto no hotel e que depois se tornou um grande amigo.
Pedro Rocha, Raúl Zurita e Pedro Lago
No último dia, na última apresentação, o poeta começa sua leitura com sua voz estridente e calma e desesperada e linda. Auge do festival. Poema atrás de poema e o teatro estava em suspenso silêncio. Nenhuma respiração se ouvia diante daquele homem que crescia a cada palavra.

Trinta minutos ininterruptos de poemas que passavam por toda sua extensa obra, até que olha para a plateia e diz:

Canto a sua amor desaparecido

Ahora Zurita me largó ya que de puro verso y desgarro te pudiste
entrar aquí, en nuestras pesadillas; ¿tú puedes decirme dónde está mi
hijo?

A la Paisa
A las Madres de la Plaza de Mayo
A la Agrupación de Familiares de los que no aparecen
A todos los tortura, palomos del amor, países chilenos y asesinos

E foi aos poucos ganhando força. Aumentando o tom de voz a medida que as imagens do poema surgiam. Uma bolha se formara e estávamos todos lá, não havia mais como sair, e ninguém queria.

Fue el tormento, los golpes y en pedazos
nos rompimos. Yo alcancé a oírte pero la
luz se iba.
Te busqué entre los destrozados,
hablé contigo. Tus restos me miraron y yo
te abracé. Todo acabó.
No queda nada. Pero muerta te amo y nos
amamos, aunque esto nadie pueda entenderlo.
Canto a su amor desaparecido é um poema pertencente ao livro de mesmo título publicado em 1985. No meio da leitura, a sensação era de estar vivendo algo único. E ele ia:

El hombro cortado me sangraba y era olor raro la sangre.
Dando vueltas se ven los dos enormes galpones.
Marcas de T.N.T., guardias y gruesas alambradas cubren sus vidrios
rotos.
Pero a nosotros nunca nos hallarán porque nuestro amor está pegado
a las rocas, al mar y a las montañas.
Pegado, pegado a las rocas, al mar y a las montañas.
Pegado, pegado a las rocas, al mar y a las montañas.

Sua voz ficava cada vez mais desesperada, lírica, como se cantasse, de olhos fechados, contorcidos, a cabeça para cima, agarrado ao microfone com as duas mãos, como se fosse a última coisa que iria dizer na vida, já não havia mais fragilidade no corpo, não havia mais nada, era o poeta e o nervo exposto diante de todos.

Pegado, pegado a las rocas, al mar y a las montañas.
Pegado, pegado a las rocas al mar y a las montañas.

Quando terminou o poema, o último da leitura, uma menina que estava ao meu lado estava desolada, chorara a apresentação inteira e no final não tinha mais forças, ninguém tinha mais forças. O poeta tinha nos matado. O aplauso demorou alguns segundos para acontecer, era o tempo do raio e do estrondo, e o estrondo tinha sido ali. Todos aplaudiram por muito tempo, mas não pelo espetáculo, pelo show ou qualquer coisa parecida, todos aplaudiram a poesia em carne viva que ali era celebrada de maneira absolutamente preciosa.

O Paraíso Perdido

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Desfragmentando minuciosamente o mito da criação do mundo bíblico e também do homem, John Milton, mesmo hoje, ressignifica muito do que é tido como verdade. O Paraíso Perdido foi publicado em 1667, em versos sem rimas e vai desde a batalha entre Satã e sua legião contra Deus e as falanges angelicais pela posse do Paraíso. Anjo caído do Céu, como todos sabem, Satã quer entrar no Éden e por lá reinar. Deus não permite e impede os planos maléficos do tinhoso.

Após imensa batalha, Satã, cujas asas se assemelham as de um morcego nos magníficos desenhos de Gustav Doré, planeja vingança após ter sido condenado a viver na escuridão do inferno por toda a eternidade. Os anjos, esse sim, com asas de penas, mais apolíneos, passam a orientar moralmente a obra derradeira de Deus para o usufruto de tanta maravilha natural, Adão e Eva.

O casal derradeiro, como todos sabem, são o amplo amor ingênuo. Sem maldades, nus, desfrutam das belezas dos jardins do Éden. Parece óbvio, mas a condição submissa de Eva, criada a partir de uma das costelas de Adão, incomoda ainda mais quando lido hoje. De acordo com Deus, Eva deve ser sempre servil a seu homem que deve protegê-la a qualquer custo, pois seu amor é maior que tudo. No livro, Milton não diz nada sobre Lilith, primeira mulher de Adão, que não aceitando a condição de submissa, foi condenada a viver a eternidade no lado mais escuro da lua ao lado de demônios terríveis.

Milton, o tempo todo, tira o leitor do ambiente bucólico e bíblico, fazendo cruzamentos com a mitologia grega, romana e mesmo a egípcia. Quisera o livro sagrado fizesse referência aos seus antecedentes, mas, no papiro, não cabe rodapé. Também não é necessário dizer que John Milton, junto com John Donne, são considerados os maiores poetas líricos de língua inglesa, com respaldo de outras grandes figuras que os sucederam, porém, é preciso ver pra crer.
Satã resolve então visitar o Éden escondido e tem uma ideia brilhante: Entrar no corpo de uma serpente e persuadir a “fraca” Eva a comer o fruto da árvore proibida, que John Milton chama brilhantemente de Árvore da Ciência, única condição de permanência de Adão e Eva ao lado de tantas maravilhas criadas pelo Divino. Lá pelo oitavo canto, há uma passagem interessante entre Adão e o arcanjo Rafael, quando este explica ao puro como o mundo havia sido criado em sete dias por Deus. Adão questiona o arcanjo sobre os outros planetas que circundam o sistema solar, como funcionam, quem gira em torno do quê, e o anjo simplesmente tergiversa de maneira a fazer Adão entender que não importa muito o que há lá fora, o que importa é o que ele explica.

Mais adiante vem a história notória. Satã convence Eva a comer o fruto que, entusiasmada com os efeitos, leva para Adão e sugere que experimente. Adão, já carregando toda a culpa do mundo ao saber que Eva havia quebrado a regra primeva, comete a hamartia (palavra grega usada nas tragédias que designa a tomada de decisão do personagem que desencadeará efetivamente em seu destino trágico, por exemplo, a hamartia de Édipo foi ter insistido em saber sobre seu passado, o resto é história). Adão, inclusive, sabendo da possibilidade de tudo ruir por causa do fruto, tal uma Julieta, come-o também para ficar junto de seu amor e assim caminharem para o castigo eterno.

Milton nos dá um grande momento quando descreve Adão e Eva sob o efeito da maçã, embriagados pelo saber, embebidos em volúpia, amando-se como nunca sobre os jardins do Éden de todas as formas possíveis, e após longo sono cansado, acordam na pior ressaca moral de suas vidas, ou, a primeira da humanidade.

 

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Deus, irado com a entrada de Satã no Éden, culpa os anjos pelo estrago e manda seu filho para falar com Adão e Eva. Arrependidos, pedem perdão, são perdoados, porém, não tem jeito, terão que sair do Paraíso.

No penúltimo canto, o arcanjo Miguel, antes de conduzir Adão para fora do Paraíso, leva-o a uma colina e mostra como será a vida dali em diante, as consequências de seu pecado para todos os seus filhos, a humanidade. Entra em uma descrição que vai desde o Velho Testamento até as pestes, navegações, sempre lembrando que o pecado maior fora o dele. Mostra como a vida mortal se tornará perecível, suscetível a doenças, condena a homossexualidade, e diz que a humanidade estará fadada a passar por danações horripilantes como luxúria, fome, velhice e alerta sobre a desonra do sexo, que gerou o canto, a perversão e (sic) a dança.

Sair da proteção eterna do Paraíso sob a sombra do Onipotente é a própria relação com a vida e todos os seus percalços. Adão e Eva ficaram juntos tanto na inocência quanto na danação ignominiosa. Na cena final, ambos caminham lentamente para uma vida mortal com o mundo inteiro a ser explorado que o poeta nos relata da seguinte forma:

De pena algumas lágrimas verteram,
Mas resignados logo as enxugaram.
Diante deles estava inteiro o Mundo
Para a seu gosto habitação tomarem,
E tinham por seu guia a Providência

Dando-se as mãos os pais da humana prole,
Vagarosos lá vão com passo errante
Afastando-se do Éden solitários.

Surfista Prateado

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Zenn-La é um planeta do sistema Deneb, localizado na Via-Láctea, muito parecido com a Terra. Atingiu o ápice da tecnologia e do desenvolvimento, dominando a ciência, os meios sustentáveis e, inclusive, a engenharia espacial. Norrin Radd é um nobre e jovem intelectual de Zenn-La que vê com enorme tristeza o marasmo pelo qual seu planeta passa. Com todas essas conquistas e desenvolvimentos tecnológicos, os habitantes do planeta Zenn-La parecem ter perdido a vontade de seguir. Há uma espécie de spleen de tédio que fez com que a juventude entrasse em uma período inevitável de auto-destruição. Uma sociedade sem utopias.

Norrin é inquieto por natureza, uma espécie de Selvagem, profundamente atormentado pela situação que sua sociedade vem passando e, por isso, é interessado pelo passado de glórias de Zenn-La. Norrin tem uma amante que se chama Shalla-Bal e seu caminho se mostra aparentemente sem muitas dificuldades, não fosse pela profunda estranheza que toma seu desejo e a insatisfação do presente limitado.

Eis que o destino fez tudo mudar quando o semi-deus cósmico Galactus, o Devorador de Mundos, que, como o nome já diz, alimenta-se de toda a energia vital de um planeta, encontra Zeen-La. Galactus não é necessariamente um ser maléfico ou um vilão. Planetas são a sua comida e Galactus tem fome. Voraz e extremamente poderoso, como um Urano, ou mesmo Cronos, sua chegada anuncia a catástrofe. Toda a população de Zenn-La vai morrer, assim como tudo que é vivo. Seria o fim de mais uma civilização pela fome do ser grandioso.
Norrin, completamente desesperado, vendo que depois de Galactus tudo viraria pó, em um rompante visceral, oferece a Galactus um pacto trágico: Deixar o planeta Zenn-La vivo em troca de ser seu arauto por toda a eternidade. Galactus, que precisava de um cão guia, um peão para tornar sua busca por alimento ainda mais eficaz, aceita e transforma Norrin Radd, dando-lhe uma porção de seu poder cósmico, transformando-o em um ser praticamente indestrutível, com um poder avassalador, capaz de mudar as moléculas dos objetos e podendo vagar pelo universo a bordo de uma prancha em velocidades ainda mais rápidas que a da luz. Cria assim o Surfista Prateado.

Sua vida de habitante nobre de Zenn-La havia acabado para sempre. Agora, Norrin não se chama mais Norrin, agora seria um escravo que escolhe trocar sua vida de antes, seu amor, seu trabalho, seus sonhos, pela de todos que ele conhece e conheceu e todas as gerações seguintes. Norrin Radd virou um mártir clássico.

Então o Surfista Prateado começa seu trabalho, vagando pelas estrelas em busca de planetas com energia vital. Em um conhecido planeta do nosso sistema solar, como que antevendo a possível catástrofe. O Vigia, um ser que observa a história do universo sem participar diretamente, avisa ao também cientista Reed Richards, líder do grupo Quarteto Fantástico, sobre a vinda do messias da morte, o Surfista e, consequentemente, Galactus.

E fazem de tudo para maquiar o planeta Terra, mas, nada parece impedir a chegada do feixe de luz prateado. E assim que descobre o planeta azul, dá o sinal a seu mestre. Todos morrerão.

Mas parece que o que restou de sentimento no Surfista aflora quando conhece os terráqueos. É memória afetiva fundamental, quase ancestral. Talvez tenha lembrado de como era em seu planeta, talvez tenha visto as claras semelhanças que ambos os povos tinham, lembrou o que fez com que mudasse o rumo de sua vida e, como um Prometeu, volta-se novamente contra seu dono clamando a permanência da vida no planeta Terra. Galactus, o deus ex-machina do cosmos, poupa o planeta Terra da destruição total, porém, dá o castigo derradeiro ao Surfista, deixando-o preso no planeta que o sensibilizou. Anos depois, o próprio Reed Richards viria a ajudar o Surfista a quebrar a barreira invisível que o impedia de vagar pelas estrelas.

O Surfista Prateado torna-se um ser sem pátria, sem amor, sem vida, com um enorme poder e sem objetivos. Não tem inimigos eternos. Não quer destruir ninguém, não quer conquistar nada, é um imortal com nostalgia do lar, da vida que poderia ter sido e não pode ser mais. É meio trágico, meio herói, mas não é nem um nem outro. Por isso vaga, busca algo que não sabe o que é e acaba se envolvendo nas mais diferenciadas histórias do acaso. Não julga, apenas age com prudência. Está sempre pensando no certo e no errado, no bem e no mal, nas diferenças que encontra em cada lugar, em cada ser que encontra na vastidão infinita do cosmos, suas aventuras são sempre introspectivas, solitárias, e por isso é um dos personagens mais fascinantes do universo dos quadrinhos.

Stendhal e o século XIX

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O Vermelho e o Negro é um clássico da literatura mundial. Na epígrafe está escrito, “uma crônica do século XIX”, e de fato é.

Henri-Marie Beyle, ou Stendhal, nasceu em 1783. O livro foi publicado entre 1827 e 1830, dos 44 aos 47 anos do escritor. Trata-se da história de Julien de Sorel, um filho de carpinteiro, nascido na província, que adorava Napoleão, dotado de grande capacidade intelectual – quase um gênio mnemônico – que sabia a Bíblia de cor em latim e também leitor de Horácio e outros poetas latinos. Mesmo sem fé, Julien tentou seguir uma carreira na Igreja, e por isso passou a viver no meio da hipocrisia, tanto sua quanto da sociedade. Apaixonou-se perdidamente duas vezes por mulheres da alta burguesia – que passou a frequentar por causa de seu trabalho – e, por fim, perdeu a cabeça na derradeira lâmina francesa, aos vinte anos de idade.

Assim como em Romeu e Julieta, todas as tomadas de decisão de Julien são sob extrema tensão. Como nasceu na província, sua perspectiva de vida já era tolhida em quase sua totalidade. Ainda jovem, percebeu que sua vida não teria grandes vôos. Ambicioso, queria conhecer Napoleão, e não seguiu a carpintaria, como o pai. Sendo um burguês comum sem linhagem, Julien não viu outra forma de chegar a um cargo elevado e sair de sua cidade que não tentando ser padre. Quase conseguiu, mas tropeçou em sua própria natureza explosiva.

Julien de Sorel não é um Lucien de Rubempré, personagem balzaquiano, também nascido na província, que tinha sonho de ser poeta em Paris e virou jornalista. Não é o próprio Rimbaud, da pequena Charleville, que precisou conhecer a intelligentsia parisiense pra saber que aquilo tudo se tratava de uma grande bobagem – e só Verlaine valia a pena. Nem tampouco é um interesseiro que apenas queria subir na vida a qualquer custo. Julien é um herói, um poeta. Por que? Porque colocou fogo nos corpos da alta burguesia da época, saindo de “seu lugar”, guiando-se pela paixão e o desejo, e estremecendo as relações dos pretendidos à boa vida desde sempre, aos “bem nascidos”. Foi decapitado, lógico, mas restou a experiência. Tinha apenas seu talento para tentar viver e soube entender, desde sempre, o que o movia ao longo dos acontecimentos – e agiu como tal. O resto é literatura, assim como toda a sua vida.

E vem essa coisa da província, do desejo de sair do lugar, onde pouca coisa acontece. Onde sabe-se que tudo é como é porque a concentração de interesses fica em outro lugar, em círculos pequenos e fechados que só rodam para si, onde as luzes piscam mais, onde há menos ternura e mais desejo, malícia. A cena de seu pai o visitando no calabouço faz pensar se tudo aquilo valeu a pena. É o retorno da origem. Julien só quis apelar quando soube que seu grande amor não havia morrido, por suas próprias mãos – quando percebeu que não conseguiria viver sem aquele fogo.

A poesia do século XIX, ou melhor, a literatura do século XIX é tão fascinante quanto seus acontecimentos históricos. Stendhal já tinha seus vinte anos quando tal século começou, e já tinha vivido a Revolução e suas consequências, mas seu livro não. Pensar que foi o século de Balzac, Victor Hugo, Dumas pai e filho, Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Mallarmé, Musset, Lautréamont, Zola, Flaubert, Gogol, Tolstói, Dostoiévski, Emerson, Whitman, Poe, Mark Twain, Henry James, Emily Dickinson, e é claro, Àlvares de Azevedo, Castro Alves, José de Alencar, Machado, Bernardo Guimaraens e outra penca de gente, só para falar da literatura, dá até a impressão que alguma coisa aconteceu para ter gerado tanta gente, em épocas e lugares diferentes é claro, mas que formou esse panteão de heróis que hoje enfileiram a prateleira dos clássicos.

O poeta é a antena de seu tempo, e todos esses conseguiram, cada qual do seu jeito, deglutir este século tão fértil e fervilhante, cujo eco vivemos até hoje.

Vitor Paiva, este texto é dedicado a você.

Roma x Grécia – Um clássico

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Épico é a definição mais correta para classificar o jogo entre as seleções da Grécia e de Roma. O que seria uma partida amistosa de preparação, como muitos já previam, tornou-se um histórico episódio bélico, digno das narrações antológicas do radialista Heródoto.

A Grécia veio com seu time principal. No gol, Homero, cego e capitão. A zaga, composta por Sófocles e Hesíodo. Nas laterais, Menandro e Aristófanes, formando assim um bloco defensivo potente, com Sófocles livre para sair ao ataque. Jogando de libero, Ésquilo é o dono da camisa 5. O meio campo sempre ofensivo apresentou suas armas mais fortes com Arquíloco, Kaváfis e Píndaro, que serviram ao ataque fulminante de Eurípides e Safo de Lesbos. Um timaço, no papiro e no campo.

O time do Roma (que gosta de ser chamado assim) tem fama de violento, e apresentou um scratch arrojado, com Petrônio no gol, Juvenal e Catulo nas laterais, Plauto e Terêncio na zaga, Lucrécio de libero, Virgílio e Lucano no meio e três atacantes, Sêneca, Ovídio e Horácio.

O técnico romano, Cícero, já havia alertado seus jogadores que enfrentariam muitos de seus ídolos, e que isso poderia atrapalhar no desenvolvimento do jogo. Mas, na prática, não foi isso que aconteceu.

O que vimos foi um início arrasador do time do Roma, sufocando a Grécia na defesa, não deixando que explorassem sua grande característica, o toque de bola refinado. E não foi por menos que os romanos abriram o placar, logo aos dez minutos da ampulheta, com um gol de falta de Horácio, em jogada ensaiada com Juvenal.

O time da Grécia, acostumado a vitórias, estava irreconhecível, com Safo isolada na frente, e um Píndaro apático na criação das jogadas. Aos trinta do primeiro tempo, Aristófanes já apresentava sinais de cansaço, devido às inúmeras investidas de Catulo pela lateral. Aristófanes corria pelo time todo. E tanto esforço defensivo acabou valendo a pena, pois os gregos, além de não terem sofrido mais gols no primeiro tempo, foram coroados com uma bela cabeçada do jovem Kaváfis no ângulo, sem chance para Petrônio.

O primeiro tempo mal terminara e a torcida grega já cantava “Queremos raça! Queremos raça!”. Sófocles quase não voltou para o segundo tempo, após forte entrada de Sêneca, aos 43.
A torcida romana gritava “Veni Vidi Vici! Veni Vidi Vici!” durante todo o intervalo. Júlio César, que estava em um dos camarotes, que pedia o esquartejamento do time grego, queria que seus jogadores jogassem como leões.

Mas alguma coisa aconteceu no vestiário grego. Talvez uma evocação dionisíaca, ou algo semelhante, pois o time voltou dançando para o segundo tempo. A torcida grega, que estava unida após tantos conflitos internos, parecia jogar com o time. Creta, Minos, Atenas, Tebas, todas as organizadas estavam juntas dando moral ao time grego “Sófocles é mal, pega um pega geral!”, “Quando a Safo toca a bola, o Olimpo deita e rola!”. O time parecia jogar por música.

Já nos primeiros quinze minutos, a incrível atacante Safo já havia marcado dois gols, ambos enfileirando a zaga romana. Plauto não via nada e Terêncio parecia encantado com a jogadora grega. Foi quando Virgílio chamou para si a responsabilidade e foi com tudo pra cima da zaga grega. Num lampejo de genialidade, diminuiu para os latinos com um gol de bico. Homero pareceu ter recusado defender chute tão feio.

A torcida romana acordou. “O o o o o Virgílio é sinistro!”, até mesmo tentando ofender a atacante grega com “Safo sapatão!, Safo sapatão!”. Porém, mostrando muita classe, a camisa onze da ilha de Lesbos mandava beijinhos para a torcida romana. “Vem que tem neném”.

A partida permaneceu disputada até os 40 do segundo tempo, e os gregos ainda venciam por 3 a 2, até que um lance polêmico mudou os rumos da peleja. Em ofensiva pela esquerda, Sêneca entrou sozinho na área e foi derrubado por Ésquilo. Penalty claro que o juiz persa, Xerxes, não deu. E aí veio a confusão. Sêneca partiu pra cima do juiz e foi impedido por Eurípides. A coisa esquentou, e Sêneca deu uma cabeçada no atacante grego, que revidou. Briga de Medeias! Os jogadores de ambos os times se atracaram num espécie de briga e abafa. No empurra empurra, Ovídio tentou cantar Safo, mas não obteve êxito.

Após quase dez minutos de paralização, o resultado não poderia ter sido outro: quatro jogadores expulsos, dois de cada time, Sêneca e Ovídio na parte romana, Eurípides e Safo, na parte grega, fazendo assim com que o juiz desse cinco minutos de acréscimo.

E o que se viu nesses cinco minutos finais foi algo da ordem do inacreditável. Com ambos os times abalados pelas perdas, a desorganização foi inevitável e o jogo ficou aberto. Aos 46, gol do Roma, com Lucano. Aos 47, outro gol do time romano, Horácio, aproveitando a desconcentração na saída de bola grega. Aos 49, o placar estava 4 a 3 para os latinos quando, Menandro, então apagado em campo, empatou para os gregos em arrancada épica. Os gregos avançaram em bloco e só não fizeram o quinto gol porque o juiz persa finalizou a partida aos 50 minutos, selando assim o empate em 4 a 4.

Após jogo quente, os jogadores se cumprimentaram em campo, sabendo que tinham vivido grandioso espetáculo. O técnico grego Heráclito de Éfeso disse na entrevista que seu time foi superior, e que me mereciam a vitória. Cícero, por sua vez, afirmou que “clássico é clássico e tudo pode acontecer, que os deuses nos ajudem na próxima”.

Ambas as torcidas aplaudiram seus jogadores, que atiraram seus lenços e brindaram com jarras de vinho. E o momento mais lírico foi o olhar de Homero para a torcida grega, como se estivesse de fato enxergando alguma coisa, pois, ao contemplar tamanha festa nas arquibancadas de pedras, uma lágrima caiu de seus olhos.

EVOÉ

Em busca do poeta

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O Pére Lachaise é o cemitério mais visitado do mundo. Lá pode-se encontrar os túmulos do Oscar Wilde, Balzac, Edith Piaf, Jim Morrison e muitos outros. O lugar é lindo. Ruas de paralelepípedos que sobem e descem, lápides esculturais, corvos por todos os lados. Um programa para o dia inteiro, para chegar cedo, e ir calmamente em busca da derradeira casa de todas essas figuras. Eu, que chegara tarde, me contentei em encontrar apenas o Balzac.

Paris também tem outro cemitério, o Montparnasse. Menos conhecido, mais parecido com o São João Batista, plano, bem menos poético. Entrei por acaso, nem sabia o que poderia encontrar. Fiquei um mais empolgado quando vi na placa que lá jaziam Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Serge Gainsbourg, Júlio Cortazar, Samuel Beckett e Charles Baudelaire. Sim, tinha encontrado meus companheiros, todos estavam mesmo lugar. Precisava encontrar todos, e desta vez, tinha tempo.

Gainsbourg foi fácil, pois em seu túmulo há dezenas de flores, garrafas, peças de roupas, calcinhas, velas, parecia um despacho, era o túmulo mais festivo de todos. Logo depois, para minha surpresa, por acaso, encontrei debaixo de uma escultura geométrica, o pintor Cícero Dias. Não sabia que ele estava lá, foi uma boa surpresa. Resolvi ir em busca de Beckett. Entrei na quadra que indicava o mapa e vi um rapaz parado em frente a um túmulo meio apagado. Ficou ali parado por um tempo, calado, pensando. Esperei que saísse para ver, quase ilegível, escrito em letras douradas o nome de Samuel Beckett. Fiquei feliz. Paris já era para mim a festa dos mortos.

Mas quem eu queria encontrar mesmo era o poeta. Charles Pierre faz parte de mim. Sempre que o leio, vem uma sensação meio boba de ser poeta, ou tentar ser pelo menos. Pensei que não teria problemas, pois o cemitério Montparnasse, como disse antes, é plano e bem dividido.

Passei inúmeras vezes pelo local indicado e nada encontrei. Li centenas de lápides, entrei no meio delas, pensava que ia encontrar uma grande homenagem ao poeta, mas, nada. As horas foram passando, e um tipo de desespero foi me tomando. Achá-lo tinha virado questão de honra. Devo ter rodado o mesmo lugar umas vintes vezes. Parecia estar num labirinto. Até falei alto, chamei pelo poeta, mas, nada.

Cheguei a desistir por um instante, procurar o Cortazar, o Sartre, mas… não consegui. Até que vi, numa pequena lápide o seguinte texto:

Jacques Aupick. Général de Division, Sénateur, Ambassadeur à Constantinople et à Madrid. Membre du Conseil Général du Dept du Nord, Grand Officier de L’Ordre Impérial de la Légion DHonneur Décoré de Plusieurs Ordres Étrangers, Décédé le 27 avril de 1857, à lage de 68 ans.

Charles Baudelaire, son beau fils, décédé à Paris à lage de 46 ans le 31 août de 1867

Debaixo das medalhas e dos títulos militares de seu avô, encontrava-se o poeta Charles Baudelaire, morto dez anos depois. A lápide ainda continuava com a descrição de sua mãe, Caroline Archenbaut Defayes e de seu pai, Joseph François Baudelaire, terminando com a frase PRIEZ POUR EUX.

Enfim tinha encontrado o poeta, mesmo que sob a sombra do avô militar, lá estava ele. Feliz pelo encontro, não queria mais saber de Cortazar ou Sartre, até tentei achá-los, mas não consegui. Passei a caminhar lentamente pelo belo cemitério, ainda um pouco estupefato pela falta de consideração com o poeta. Um túmulo tão pequeno! Até encontrar, do outro lado, um monumento a Charles Baudelaire, com uma estátua numa das ruas principais do cemitério, com direito a dois bancos para contemplação e descanso. Sabia que o poeta merecia mais e, de fato, teve sua digna homenagem.

De volta ao mundo dos vivos, satisfeito, saí do cemitério e fui encontrar o Daniel Castanheira.

POESIA TECIDA SEMPRE EM PROCESSO

POESIA TECIDA SEMPRE EM PROCESSO é um filme homenagem amálgama folhas de relva que cresceu e continua crescendo. É um filme que nunca termina, assim como toda essa angústia que faz movimentar tudo que se tem feito nesse imenso espaço sem fim. Há lugar para todos. Todos os filmes desta série são o mesmo filme. A mesma narrativa, a explosão, falando das mesmas coisas, das mais variadas formas nessa vida onde se faz tudo, seja no Rio de Janeiro, São Paulo, Paris, Londres, Espírito Santo. Este filme é uma homenagem aos tecelões da geração tecida da poesia do sempre agora. Este filme tenta em vão apreender todos que caminham e pulam e gritam e choram e gozam e riem e babam no asfalto quente e enfumaçado da cidade onde a única saída possível é fazer tudo possível dentro do impossível.
A Geração Tecida é o não-enquadramento formalista. É saber-se múltiplo diante da realidade angustiante que se desdobra a cada instante. É tentar entrar no limite do limite da instantaneidade do instante e nunca parar. Não há fim. Só há meio e troca.
Fazer muitas coisas ao mesmo tempo nunca foi novidade. Blake, Maiakovski, Mishima, Mautner, Pasolini, Ericson e muitos que se viram no lugar onde tudo faz sentido.Todos aqueles que saltaram para além dos muros do imenso labirinto e viram a imensidão se descortinando.Tudo é linguagem. Há sempre novas formas de dizer as mesmas coisas, outras coisas, qualquer coisa. O presente é a interseção do diálogo com a tradição e a constante busca pelo novo. É olhar o futuro para dar sentido ao presente e viver o presente para dar sentido ao futuro. É inventar histórias, caminhos, mundos. Jogar-se à grande angústia de explodir as próprias vísceras em praça pública.
POESIA TECIDA SEMPRE EM PROCESSO é o desejo, a mania, o grito que alinhava os fios. É o que nunca será satisfatório, nunca dirá tudo, mas, realizar, seja lá o que for, é tão fundamental quanto respirar. É o próprio ar, comida, gozo, fezes, saliva, excremento, sangue, lágrima. É o eterno retorno.
Todos que participaram deste filme são tecelões desse grande movimento. Os nós não se desatam facilmente, e o tecelão segue, sempre seguirá. Palavras do Pires, do Ericson tecelão fundamental que fez e faz a ciranda girar até virar hélice.
(as imagens utilizadas no filme são do arquivo pessoal de Pedro Rocha e Pedro Lago)

Para onde o vento sopra

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Quando cheguei ao hotel na rue Vieux Colombier, no 6, fiquei espantado com a igreja Saint-Sulpice. De fato, não havia como não entregar-se àquele amarelo ouro que surgia no fim de tarde. Em frente à Igreja, havia uma fonte, que de madrugada, o som das águas caindo ganhavam um sentido quase místico.

Seria a primeira vez que ficaria sozinho em Paris após dez dias na rue des Vinaigriers, no 10, com Dado e Dri. Era apenas eu. Do quarto se via a igreja e a esquina da rue Bonaparte. Sem sol em outubro. O quarto era pequeno, com uma mesinha redonda e um papel de parede quadriculado. Era de manhã ainda quando cheguei ao hotel. Fui recebido por Pilar, espanhola de Madrid, gerente do hotel charmoso num prédio antigo, de uma Paris que não há mais, e que hoje, abriga apenas os ricos de outros países.

O 6eme arrondissement é famoso pela sua história. Por ter sido um dos primeiros bairros de Paris e também o lugar onde, de certa forma, cresceu o existencialismo. Há uma praça em frente ao Deux Magots e o Café des Flores, com o nome do Sartre e da Simone de Beauvoir, mas, os preços e, sobretudo, a frequência dos históricos lugares não lembram nem de longe o “verdadeiro lugar da liberdade” que Sartre disse uma vez e que serve de “introdução” ao cardápio/revista do Café des Flores e seus caríssimos omeletes. Pensei que seria infeliz naquele lugar excessivamente burguês.

Deixei minhas coisas no hotel e fui andar. Atravessei a praça Saint Sulpice e fui atraído por uma estreita rua de paralelepípedos, bem característica de Paris, que daria de frente ao Jardim de Luxemburgo. Rue de Férou. Já me sentia dentro de um filme ou algo parecido, quando me deparei com um enorme muro onde estava grifado, enorme, o Le Bateau Ivre.

Comme je descendais des Fleuves impassibles,
Je ne me sentis plus guidé par les haleurs:
Des Peaux-Rouges criards les avaient pris pour cibles
Les ayant cloués nus aux poteaux de couleurs.

Absolutamente pasmo, fiquei diante do poema de mais ou menos vinte metros de comprimento, curiosamente, escrito da direita para esquerda. E estava lá, inteiro, magnânimo.

Et dès lors, je me suis baigné dans le Poème

De la Mer, infusé d’astres, et lactescent,

Dévorant les azurs verts ; où, flottaison blême

Et ravie, un noyé pensif parfois descend ;


Gargalhei quase chorando, era uma criança numa loja de brinquedos. Falei o poema em voz alta, fiz com que duas ou três pessoas parassem para ver o que eu via. Era uma das únicas homenagem que Paris fazia ao poeta de Charleville, pois, como se sabe, a França enaltece seus heróis, suas estrelas, e Paris, tal uma loba, somente seus filhos diletos.

Não entendi porquê o poema estava escrito da direita para esquerda, até ler a pequena explicação ao lado do nome do poeta que traduzo assim “Por que este poema começa à direita? Rimbaud (dezessete anos) declamou Le Bateau Ivre a primeira vez à seus amigos no primeiro andar de um antigo café do outro lado da Praça Saint Sulpice (1871). Em nossa imaginação, o vento soprava da Praça Saint-Sulpice, pela noite, na rue Férou”.

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Não precisava mais entender porquê tinha que estar ali, naquele bairro, com aquelas pessoas. Não liguei para mais nada, pois tinha sido tomado por um sentimento de acolhimento, de certeza. O poeta estava lá comigo, e me acompanharia desde então.

Je ne puis plus, baigné de vos langueurs, ô lames,

Enlever leur sillage aux porteurs de cotons,

Ni traverser l’orgueil des drapeaux et des flammes,

Ni nager sous les yeux horribles des pontons.

Nos trinta dias que fiquei naquele hotel da rue Vieux Colombier, creio que não houve um dia em que não passasse pelo grande poema, único lugar onde Rimbaud estaria de corpo, gritado, grifado, porque em Paris, quem manda, mesmo, é Paul Verlaine.